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O que os agricultores tem a dizer sobre os falsos orgânicos denunciados pelo Fantástico

Matéria no Fantástico denunciou falsos produtores de alimentos orgânicos

Publicada em 01.02.2016

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Montagem: SouVegetariano.com

 

Produtos orgânicos são saudáveis, não levam nenhum tipo de veneno em sua produção e ainda possuem uma relação muito mais sustentável com o meio ambiente. Outra característica destes alimentos, é que eles vêm driblando a crise e são comercializados por um preço em média 30% mais caro do que os convencionais.

Esta última característica chamou a atenção de alguns supostos produtores que iniciaram uma prática denunciada ontem, dia 31, no Fantástico. Se você não viu, aqui está o link.

Os chamados produtores de falsos orgânicos pela reportagem, compravam alimentos convencionais e os revendiam a preço de orgânicos. Uma prática criminosa que além de enganar o consumidor que está a procura de uma alimentação mais natural, acaba denegrindo a imagem de outros produtores ecológicos que levam a vida de maneira honesta. Os locais denunciados foram Florianópolis, Recife e Fortaleza.

Preocupados com o assunto, já que sempre valorizamos a agricultura orgânica aqui no portal, fomos atrás de dois representantes das principais feiras orgânicas de Porto Alegre (Nelson Diehl, da Feira dos Agricultores Ecologistas no Bom Fim, e Anselmo Kanaan, da Feira da Cultura Ecológica no Menino Deus), para perguntar o que eles têm a dizer sobre a reportagem e suas consequências. Em comum nas respostas, podemos destacar o seguinte: eles precisam (e muito) de você. Entenda:

 

Sobre o impacto da matéria

Nelson:

“O impacto vai depender muito do quanto a mídia irá se aprofundar no assunto. Se ficar só nessa matéria talvez não influencie muita coisa. Mas se se aprofundarem mais pode sim afetar o movimento das feiras. Mas isso era uma coisa óbvia. O sistema de certificação é falho, visando totalmente o lucro, sem gerar credibilidade. Não é porque o agricultor passou por uma série de obstáculos que ele terá credibilidade. Essa lei da certificação é feita para gerar serviço e não para fiscalizar. O governo incentiva muito mais a indústria do agrotóxico do que faz uma certificação devida. Um impacto positivo talvez seja uma maior aproximação do consumidor com os agricultores.

Eu estive em Florianópolis e fiquei horrorizado com a desorganização generalizada das feiras de Floripa. Recife da mesma forma foi uma Ong que criou a feira e a coisa descambou. É o que digo, a falta de organização dos consumidores que permite isso.”

 

Anselmo:

“Eu acho que é um problema, e todo problema deve ser resolvido. Os espaços de comércio não estão incólumes à situações como essas. É necessário criar espaços de controles mais rígidos.

Quem ocorre ao consumo de orgânicos, na sua grande maioria está mais preocupado com a sua saúde. E  conviver com uma situação dessas é um instante desprezível, de enganação, usando uma linguagem mais rasteira, é uma verdadeira vigarice.

A matéria tem um direcionamento. Ou seja, ela faz uma denúncia e mostra o resultado desta denúncia. Que inclusive, foi relatada por um próprio agricultor. Eu acho que a pergunta que deveria ser feita é: “o que as pessoas estão comendo?”. E ela termina fugindo disso. Mostrando apenas que tem pessoas com condutas duvidosas e que elas devem ser punidas.

A agricultura orgânica é baseada em princípios. Existe uma ciência que norteia tudo isso, que se chama agroecologia. Este princípio expressa uma determinada via de como fazer agricultura. Baseada na biodiversidade, na proteção ao meio ambiente, no trabalho local… Enfim, tem diversas situações que norteiam isso. Caso contrário estaríamos norteados apenas pelo mercado. E o mercado não pode ser o único norteador deste processo.

A grande maioria das pessoas estão subordinadas às grandes cadeias de supermercados. E a gente sabe que somos atualmente os maiores consumidores de veneno do mundo, e por consequência um dos maiores consumidores  de alimentos transgênicos. E isso é contrário ao nosso ponto de vista de que precisamos fortalecer a diversidade. Fugir de um processo de padronização da alimentação.”

 

Sobre o controle nas feiras:

Nelson: 

“O controle é efetivo através da certificação participativa. A gente está há 20 anos trabalhando na feira, sabemos como as coisas funcionam. Nós acompanhamos como está o clima, como anda a colheita. Se um agricultor chega com muita batata em determinada época, por exemplo, a gente sabe que aí alguma coisa tem. Se ele sempre trabalhou com duas espécies de uva, e do nada aparece com outra totalmente diferente também desconfiamos. Acreditamos muito mais nessa certificação colaborativa, onde os próprios agricultores se fiscalizam, do que em uma externa.

Eu sou muito crítico em relação à certificação. Minha história foi de construir a credibilidade. E a certificação não faz isso, pois ela é excludente. Por exemplo, um agricultor pode cultivar organicamente, mas se um vizinho a 20km de distância utiliza agrotóxico, seus alimentos também serão contaminados. Mas ele não deve ser considerado mais ou menos puro por isso.”

 

Anselmo:

“Entendo que em Porto Alegre temos uma experiência muito interessante, que é o conceito de Feira Orgânica. Onde todos as instâncias envolvidas com a produção de alimentos orgânicos debatem regularmente, acompanham todo este processo produtivo.

Analisam ações nestes espaços. Por exemplo, enquanto feira de orgânicos, a gente não recebe apenas as visitas do MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), a gente recebe visita da vigilância sanitária, da justiça do trabalho, sobre a possibilidade de ter crianças trabalhando em espaços de comercialização… enfim, muitos órgãos do estado estão presentes.

Quem executa as instruções normativas são as certificadoras. Mas recebemos as fiscalizações do MAPA de forma permanente. Eles recolhem amostras, coisas que só três estados estão fazendo. A gente é passível de visitas e de algumas formas de controle deste processo produtivo.

As vezes fica a impressão de que não existe fiscalização, e ela existe sim. E os agentes fiscalizadores são os mais diversos possíveis. A vigilância sanitária passa lá e vê que não tem a data de fabricação do suco de uva, por exemplo, e já dá um destino na hora. A fiscalização tem que ser algo permanente.”

 

 

Sobre as mudanças necessárias

Nelson:

“Hoje eu vejo a feira despreparada para lidar com isso. Pois ela não sabe mais como lidar com o consumidor. Nós mesmos devemos nos organizar melhor para viabilizar novas maneiras de gerar credibilidade.”

 

Anselmo:

E eu acredito que a fiscalização precisa ser fortalecida com a presença do consumidor. Ainda acho que tem poucos consumidores participando das decisões de comercializações dos produtos orgânicos, ou seja, o verdadeiro interessado, que mantém um laço de confiança com o agricultor, ele precisa também estar imerso neste processo pra que consolide essa relação.

Ele deveria fazer parte das comissões de feira. Existem comissões de feira de quatro agricultores que se reúne semanalmente e eu acredito que os consumidores devam estar presentes neste espaço organizativo.

Eu acredito que todo consumidor tem direito a uma informação transparente. Quando ele chega na feira ele pode solicitar aquilo que eu chamaria de uma certidão de nascimento, um documento de identidade, que é o processo de certificação. Este processo de certificação é uma das formas e a mais eficaz de controle deste processo produtivo. Ele precisa ser estampado na frente da banca. A gente tem também um outro espaço que realizamos com uma certa frequência, que chamamos de visitas orgânicas, onde os consumidores saem da sua vivência urbana e vão visitar a produção in loco. Isso cria uma relação, um respeito e um estreito laço de confiança, que é importante. Porque sem confiança, sem credibilidade nessa relação, fica tudo fragilizado.

Acho que precisamos aumentar o controle da forma mais efetiva possível. Nós precisamos da ajuda do ministério da agricultura, do conselho de feiras, da vigilância sanitária. Esse espaço do conselho que é um espaço de fortalecimento das ações. A gente tem limites. O agente externo, quando ele age, é uma mão eficaz.

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